Melhores álbuns brasileiros de 2025
10º
Bufo Borealis – Natureza No seu terceiro projeto, o sexteto paulista entrega uma experiência imersiva pontuada por jazz, post-rock, latinidades, 70s, soul-funk-psicodélico. O álbum se destaca pela construção de camadas sonoras instrumentais que dão um clima espacial às faixas. Os diálogos entre sopros e guitarras são primorosos. O coletivo explora as infinitas possibilidades das texturas sonoras contemporâneas de uma forma visceral e com maestria na escolha dos timbres.
9º

Emicida – Mesmas Cores & Mesmos Valores Após seis anos do bem sucedido AmarElo, Emicida retorna com uma obra de profunda exposição emocional, moldada pelo luto após a perda de sua mãe. O disco estabelece um diálogo conceitual com o álbum Cores & Valores (2014), dos Racionais Mc's, para revisitar o passado. Esse farol é o ponto de partida, ou de chegada, para o rapper versar sobre a longa caminhada do rap nacional até os dias de hoje. A faixa A Mesma Praça, por exemplo, com participações de Rashid e Projota, revisita o histórico show dos Racionais Mc's na Praça da Sé, na Virada Cultural de 2007. No episódio, o show terminou abruptamente com a saraivada de balas de borracha que a polícia atirou em direção à plateia, sem motivo algum, já que estava tudo em paz, até então. Era uma multidão e, por pouco, não houve uma grande tragédia. Esse que vos fala teve um casaco rasgado e algumas escoriações pelo corpo. O repertório, com 10 faixas, começa com colagens de áudios de Dona Jacira e já deixa claro que o que virá a seguir será emocionalmente denso. Duas faixas instrumentais explicitam que a intenção nunca foi realizar um disco formatado em modelagens do rap comercial atual. Resgate autobiográfico, bases bem construídas e boas sacações na produção fazem dessa "volta" do Emicida ao rap um dos momentos mais inspirados da trajetória do artista e uma bela homenagem aos Racionais Mc's
8º
BaianaSystem – O Mundo Dá Voltas Lançado em janeiro de 2025, o quinto álbum do grupo baiano propõe um ritmo mais cadenciado, mas repleto de vigor. Sob a produção de Daniel Ganjaman, o disco expande as conexões da "Améfrica Ladina", unindo Salvador ao Caribe e à África lusófona. Com participações de peso como Gilberto Gil, Antônio Carlos & Jocafi, Buginha Dub, Emicida, Seu Jorge e Anitta, a obra mergulha em questões sociais e na ancestralidade indígena e negra. Entre sambas, ijexás e a força da Orquestra AfroSinfônica, o BaianaSystem entrega um registro coeso que reafirma sua essência. Eu continuo desejando um pouco mais de guitarra baiana nos álbuns da banda - quem conhece o primeiro disco, de 2009, sabe o que estou falando.
7º
Nyron Higor – Nyron Higor Lançado globalmente pela Far Out Recordings, o disco de estreia deste multi-instrumentista alagoano é leve e inventivo. Gravado inicialmente em um estúdio caseiro em Maceió e finalizado em São Paulo, com Bruno Berle e Batata Boy, o álbum funciona como um "diário sonoro" que conecta o Nordeste ao mundo. Nyron funde harmonias de jazz e batidas de hip hop a ritmos tradicionais, alternando peças instrumentais com canções de um lirismo suave. É uma obra multifacetada que transforma recursos simples em uma produção que equilibra técnica e doçura. O clima lo-fi do álbum é um charme especial.
6º

Em "Big Buraco", seu aguardado segundo álbum, a baiana Jadsa transita do experimental - marca de seus trabalhos anteriores com o Taxidermia (projeto paralelo com João Millet Meirelles), para um conceito mais popular, mais canção. Produzido por Antonio Neves, o disco funde MPB, neo-soul, samba e hip hop. Gravado em apenas sete dias, o trabalho revela a força de Jadsa como intérprete. A obra equilibra leveza e poesia, reafirmando a artista como uma das melhores vozes da música brasileira contemporânea.
5º
D’Água Negra – Sinal Vermelho Vidro Preto - Lançado em 2025 pela Dobra Discos, o álbum de estreia do trio amazonense é uma jornada sensorial e noturna. Composto por Bruno Belchior, Clariana Arruda e Melka Franco, o trabalho funde jazz, soul, eletrônica e pop sob a produção de Daniel Brita. As dez faixas têm harmonias vocais sofisticadas e um climão 'sábado à noite', mas numa pista particular, com amigos, à beira de uma piscina - é uma onda leve e sedutora. O disco consolida a D’Água Negra como uma das grandes revelações da música nortista, entregando uma obra poética.
4º

Alaíde Costa brilha com "Uma Estrela Para Dalva" (Deck), álbum tributo que celebra o legado de Dalva de Oliveira. Com produção de Thiago Marques Luiz, o disco revisita clássicos como "Bandeira Branca" e "Ave Maria no Morro".
O trabalho conta com um elenco estelar, incluindo Maria Bethânia, Roberto Menescal, Amaro Freitas e Guinga. Aos 90 anos, Alaíde reafirma sua maestria técnica e sensibilidade, entregando uma obra fundamental que preserva a memória musical brasileira com elegância e frescor. O disco é delicado e minimalista, com arranjos de piano e cordas. Uma pérola!
3º

Inspiradas no filme de terror A Visita (2015), Katy da Voz e as Abusadas lançaram, com o mesmo título do filme, um petardo que talvez seja o álbum mais punk de 2025. Direto do underground das pistas LGBTQIAPN+ paulistas, o trio bota fogo no parquinho. São 10 faixas com muito techno pesadão, funk proibidão, ruídos, barulho, gritos e muita putaria. O disco é raivoso, desbocado e feito para incomodar. Não recomendado para membros da tradicional família brasileira. Ou não!
2º
Cybertrópico, segundo álbum do Disstantes, é uma porrada na orelha. O trio do Rio de Janeiro bebe em muitas fontes, misturando rap, funk carioca, hardcore, dub, música eletrônica, rock... Tantos gêneros juntos poderiam resultar em uma colcha de retalhos, mas o resultado é exatamente o contrário. O disco tem uma coesão improvável. As faixas são bem diferentes entre si, mas se interligam por um fluido distópico que cria uma combustão presente em todas as composições. As batidas são precisas e os samples sempre surpreendem. Os synths, com timbres e texturas perfeitas, são um detalhe muito especial na construção do som dos Disstantes. Os vocais são muito bem construídos, criativos, e não se repetem em uma única fórmula. As letras têm ótimas sacações e possuem um carioquês periférico que deixa ainda mais genuíno o trabalho do trio formado por DJ Feres(samples e synths), Gilber T(mic), Homobono(mic)
1º
Caro vapor II – Qual a forma de pagamento? é um álbum surpreendente. Don L rima, com um flow personalíssimo, em cima de bases construídas, na maior parte do tempo, com ritmos brasileiros. Este é um dos maiores trunfos do disco que não se rende aos modismos do rap. No caldeirão entram funk, R&B, rap, bossa nova, samba, baião... As letras são politizadas, mas não panfletárias, atingindo o objetivo de passar as mensagens com clareza e de uma forma nada óbvia. A bola não cai durante as 15 faixas, povoadas de momentos inesperados, e a cada audição novos detalhes são capturados pelo ouvinte. Citações a Itamar Assumpção, Milton Nascimento, Dorival Caymmi e as colaborações de Alice Caymmi, Anelis Assumpção, Terra Preta, Mc Dricka, Luiza de Alexandre e Iuri Rio Branco dão ainda mais brilho ao álbum produzido por Don L e Nave.
por Rica Guimarães
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